quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Resenhas - Angra - Secret Garden (2014/2015)

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Angra - Secret Garden (2014/2015)

Duas ressurreições depois, o Angra está de volta. Se arcar com a saída de Andre Matos e companhia, no início dos anos 2000, já não foi moleza, imagina passar pelo mesmo processo, outra vez?! A segunda grande crise do Angra se inicia com a saída de Aquiles Priester, após a turnê do álbum Aurora Consurgens e atingiu a massa crítica no terrível show do Rock in Rio, em 2011, que culminou com a partida do vocalista Edu Falaschi. Culpa e culpados à parte, a banda desmoronou de forma impressionante e, dessa vez, o destino pareceu realmente incerto. Mas o Angra seguiu adiante com novas ideias, algumas muito boas - como a entrada de Bruno Valverde - outras terríveis - como um suposto reality show para escolher o novo vocalista. As novas ideias, de fato, foram a lei, e Fabio Lione foi escolhido como cantor do Angra. Após a gravação de um DVD, na qual a performance da banda gerou divisões, o que esperar do novo álbum da banda?!

Secret Garden representa, realmente, um Angra renovado. É um renascimento mais literal do que em Rebirth, afinal, aquele disco (apesar de esplêndido), está mais para uma reencarnação do antigo Angra. Dessa vez, a banda optou por dar continuidade à um processo d evolução musical mais voltado ao Progressivo e a um perfil mais sombrio de sua sonoridade. Além de Lione e Valverde, o álbum traria participações especiais de Doro Pesch e Simone Simons, além de maior participação vocal de Rafael Bittencourt.

A mudança pode ser sentida de cara, com a aberturam em Newborn Me - após uma curta introdução, similar à que precedia The Course of Nature, do Aurora. É válido fazer um primeiro ressalte. Muitos acusaram a banda de se aproximar do som do Rhapsody (of Fire), devido aos vocais de Fabio, eles não poderiam estar mais errados. O carismático italiano é uma aposta certa, não apenas por ser um nome consagrado na cena, mas porque é capaz de inserir uma identidade própria e distinta a cada banda da qual participa. Isto dito, podemos receber uma performance impressionante de Fabio, nessa música, que tem uma pegada mais cadenciada, muito diferente das aberturas bombásticas, como Nova Era ou Arising Thunder. Apesar disso, temos um refrão pegajoso e um interlúdio genial com um violão latino esplêndido. É uma bela abertura.

Black Hearted Soul é uma música que se aproxima mais da antiga alma Power do Angra, e o faz de forma exemplar, sendo, em minha opinião, um dos melhores momentos do disco, com mais uma demonstração da capacidade vocal de Fabio, além da adição de vocais, e uma grande performance de Bruno, na bateria. Além disso, temos a velha introdução com as técnicas e ultravelozes guitarras de Kiko e Rafael. Outro ponto alto vem a seguir, com Final Light. É com base nessa música que afirmo, sem medo, não é apenas uma face diferente de Lione, mas seu melhor desempenho em um disco, em toda a sua carreira. Final Light é pesada, densa e emocionante, devido, em especial, à sua voz e à pegada de percussão dada por Valverde.

A música escolhida como clipe, Storm of Emotions é curiosa, uma semi-balada, que lembra um pouco o Dream Theater e nos apresenta a dois elementos chave do disco. De cara, o baixo de Felipe Andreoli, pesado e técnico, como sempre, muito mais presente nas composições de todo o disco - as vezes, resumindo o espaço dado às guitarras. Outro ponto alto são os vocais de Rafael Bittencourt, já aparecendo rapidamente nessa música. Mas é em Violet Sky que o guitarrista assume os vocais principais. Rafael evoluiu claramente, desde a primeira aventura em Out of this World, faixa bônus do Aurora, passando pelo (ótimo) Brainworms I, seu disco solo, se tornando um ótimo cantor. Mas prefiro guardar minha opinião quanto a isso para um parágrafo adiante.

Secret Garden, a faixa título, foi reservada para os vocais de Simone Simons (Epica). Ok, Simone é uma ótima cantora, elogio bastante o último disco de sua banda. No entanto, essa música não tem nada de especial, e todo o talento da moça me pareceu sub-explorado, como uma música qualquer de alguma das milhões de Rock Operas que estão por aíi, em que a vocalista apenas cumpre tabela. Pouca emoção. Um problema maior me ficou ressaltado, a essa altura do disco. Afinal, quem é o vocalista do Angra? Em Secret Garden eu já estava pedindo para ouvir novamente a voz do Fabio, apenas para me sentir estável.


Quando ela vem, em Upper Levels, há um alívio. Aliás, destaque absoluto para Felipe Andreoli, nessa faixa. Baixista exemplar, Felipe se mostra cada vez mais ativo e importante para o Angra. Refrão excelente, e uma música com uma boa levada, mais próxima do som brasileiro de outrora. Além disso, seu final apoteótico dá novo gás ao ouvinte. Crushing Room conta com a participação da experiente Doro Pesch, que se saiu melhor do que Simone, devo dizer. Em seu dueto com Rafael, Doro experimenta e arrisca com vocais mais graves e emocionais.

O final do disco reserva as maiores emoções, na minha opinião. Perfect Symmetry é o Angra que o ouvinte mais saudoso esperava ouvir. Veloz, melódico, direto. Um Power tradicional com o primeiro, e talvez único, grandíssimo momento de Kiko Loureiro no disco, fazendo, inclusive, sua guitarra cantar. Além, claro, de uma grande atuação de Fabio, mostrando que, aqui, não há Rhapsody ou Vision Divine, e sim, Angra. Por fim,  Silent Call, música que arrancou lágrimas dos meus olhos e me deu arrepios, como o Angra já não conseguia há algum tempo. Rafael Bittencourt é um músico espetacular e uma pessoa amável e carismática. Lembro dos minutos de conversa num aeroporto, após um longo vôo, e o sujeito me recebeu com um sorrisão. Todo esse perfil é transportado para a música, em pegada acústica a la Reaching Horizons. Sem grandes firulas, sem sequer, contar com "um vocalista principal", mas com toda a emoção que a música do Angra é capaz de proporcionar. Silent Call é uma síntese de todo o disco, e do que o Angra acaba de se tornar.



Claro, o disco tem pontos negativos, pelo menos dois. Primeiro, é compreensível que o mercado japonês tenha certas exigências, como faixas bônus, formatos distintos, ou um lançamento prévio. Mas um mês de diferença? Isso fez o disco pertencer tanto a 2014, quanto a 2015, e pode ter prejudicado bastante o Angra, no quesito downloads. Do ponto de vista musical, apesar da riqueza de convidados e dos excelentes vocais do Rafael, a salada de vocalistas me confundiu e deu a Fabio Lione uma cara de provisório. O disco parece querer dizer "não precisamos do Andre, nem do Edu... e nem do Fabio." Espero que ele permaneça na banda, afinal, sua atuação foi não menos do que perfeita.


Como diz uma das músicas, Secret Garden é uma Tempestade de Emoções, mesmo. O disco perde força no meio, sim, mas retoma no final. Pode não ser brilhante, mas está longe da frieza técnica do Aurora e do AquaComo um sujeito já mais "experiente", fico muito feliz de sentir com o Angra aquele frio na barriga que não sentia desde 2004 com o Temple of ShadowsÉ preciso agradecer à essa banda por muitas emoções na minha vida.
Sim, o álbum tem a cara do Rafael, mas ele sempre foi a alma da banda. Basta perceber que nem Andre nem Edu são compositores geniais nas suas carreiras solo (o Edu ainda é melhor que o Andre). Mas tem muito jeitão do Felipe também, incrível como ele tomou conta da banda, desde que entrou. Lançado no Brasil também em digipack, Secret Garden é o melhor disco do Angra em dez anos, e a prova de que a banda continua firme, forte e renovada para enfrentar quantos renascimentos forem necessários, sem segredos, apenas com emoção.

Nota 9/10.



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