sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Clássicos - Angra - Temple of Shadows (2004)


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Angra - Temple of Shadows (2004)

E lá se vão mais de dez anos desde o lançamento de Temple of Shadows, para muitos, a obra prima máxima do Angra. Sem dúvida, o disco é um dos mais aclamados e adorados da música pesada no Brasil e, certamente, um dos mais significativos. Temple of Shadows é cercado por místicas e relevâncias em dimensões diversas, é considerado uma obra brilhante do ponto de vista musical, gráfico e literário. 

Álbum de qualidade incontestável, o ToS (como passou a ser tratado já nos fóruns da época) é também um divisor de água na carreira do Angra. Seu ápice criativo e técnico, com uma recepção genial no Brasil e no exterior, tornou-se também uma pedra no sapato e parâmetro para os trabalhos posteriores.  Sua turnê foi longa e exaustiva e causou problemas que teriam desdobramentos profundos no futuro. Afinal, porque Temple of Shadows é um clássico?

Temple of Shadows é um disco conceitual, baseado na história fictícia de um cruzado, conhecido como O Caçador de Sombras, que cai ferido em batalha pela reconquista de Jerusalem e é socorrido por uma família muçulmana. Perturbado por antigas visões causadas pela fala de um velho cego, o soldado começa a questionar os motivos de sua jornada e imerge em um processo mais profundo de descobrimento pessoal. Tudo tendo como fundo as batalhas das Cruzadas, a perda de entes queridos, a formação de uma nova família e, em especial, a libertação de dogmas e preconceitos religiosos. Após abandonar o catolicismo, o Caçador de Sombras forma uma nova família, ao casar-se com a irmã dos dois muçulmanos que o carregaram sob a luz da Estrela da Manhã. A história se desdobra de uma maneira talvez trágica, mas muito intrigante, mas pretendo evitar os spoilers.

O background religioso está presente em todo o disco, mesmo quando falamos de guerras e cenários sangrentos. Muito disso se deve ao início de um novo direcionamento tomado pelo guitarrista e compositor predominante da banda, Rafael Bittencourt. Ao longo dos anos, li muitas falas suas sobre sua postura no que diz respeito à religião, e ao debate filosófico sobre a existência de Deus em cada um de nós. Isso fica cada vez mais claro em Temple of Shadows, em especial quando o Caçador de Sombras se torna o líder de uma nova religião, fundamentada na
 Teoria da Luz, baseada, por sua vez, no perdão de Satã, a ausência de Deus, o amor ateu e a Gnose.

É visível que o disco representa uma maturidade profunda no que se refere às letras e à ambientação da história. Mas nada disso seria suficiente se a parte musical do disco não fosse como é. Antes, deixem-me preparar o terreno. Gosto de afirmar que Temple of Shadows é um dos discos mais espetaculares de Power Metal que já ouvi, mas, naquele momento, simplesmente não era o Angra. É um álbum muito mais pesado, cheio de riffs cadenciados e uma presença de corais que ainda não tinha sido ouvido nos discos da banda. Não era um Holy Land, tão abrasileirado, nem um Rebirth, mais melódico. Além do mais, havia os convidados. Kai Hansen, Hansi Kürsch, Sabine Eldesbacher e Milton Nascimento (!!!) faziam parte do time de artistas que ajudariam a contar a história do disco. Todas essas mudanças não são ruins, mas, mais uma vez, representaram uma virada na carreira do Angra.

O disco abre com a bem encaixada introdução Deus le Volt! que coloca o ouvinte em estado de espera para a explosão que se dá com a clássica Spread Your Fire, um hit imediato, que apresentava um Edu Falaschi impecável, além dos vocais de apoio de Sabine. É incrível ouvir ao Eduardo desse momento e imaginar que o disco custaria tanto de suas cordas vocais, afinal, ele soava tecnicamente perfeito. O desempenho se repetiria na veloz Angels and Demons, com uma cara de Metal Progressivo que seria marca registrada do Angra, desse momento em diante. Além das notas altíssimas de Edu, é preciso destacar como Felipe Andreoli se tornava peça chave da banda. Não é possível, nem desejado, desmerecer o talentoso Luís Mariutti, mas a entrada de Felipe deu vida nova ao baixo do Angra, com um peso e velocidade inacreditáveis que podem ser conferidas nessa música. Além do mais, a canção também apresenta o entrosamento da dupla de guitarristas do Angra, jamais questionado. Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro nunca estiveram melhores do que em Temple of Shadows, basta ouvir o solo dessa música.
O disco segue com a cadenciada Waiting Silence, que conta mais uma vez com o peso do baixo de Andreoli em destaque. Além do mais, o fã do Angra jamais esquecerá as passagens da bateria em Temple of Shadows, Aquiles Priester foi tão marcante para a banda que é quase emocionante ouvir o seu trabalho nessa música, que se tornou faixa certa nas turnês que seguiriam. Wishing Well é a balada do álbum, e a única que ganhou um videoclipe, é uma música emocionante que conta com belas passagens acústicas e mais uma bela performance de Edu Falaschi, além de backing vocals marcantes de Rafael Bittencourt - quem diria que isso seria tão comum, no futuro? 

Mas o maior impacto do álbum vem a seguir, com a primeira participação efetiva do disco. Guitarras supersônicas e uma bateria ultra rápida preparam o ouvinte para o que vem a seguir, com a voz inconfundível de uma lenda do Metal, Kai Hansen (Gamma Ray), que havia tocado guitarra, como convidado, no primeiro disco da banda. Temple of Hate é uma favorita instantânea, não é só uma das maiores músicas do Angra, mas representa tudo que o gênero tinha a oferecer, melodias cativantes, solos de tirar o fôlego e uma ambientação perfeita. É possível sentir a angústia e melancolia do massacre de 70 mil pessoas em Jerusalem, retratado pela canção. Uma obra de arte do Power Metal. Para os que sentem falta da influência brasileira na musicalidade do disco, ela aflora com mais veemência na segunda metade do disco, a partir, em especial, da incrível The Shadow Hunter. Uma obra longa e cheia de variações, iniciada com uma bela introdução de violão e caindo numa pegada mais anos 70, uma espécie de "Yes Metal". Mais destaque para os vocais de Rafael, nos momentos intermediários da música. E mais um para o Kiko Loureiro, que novamente provava ser um dos melhores guitarristas do mundo. Ah, e para não esquecer, o agudo do Edu Falaschi alcança a alma no final da música. Pena que isso não poderia ser reproduzido ao vivo.

O disco segue com a balada No Pain for the Dead, essa com maior presença da vocalista Sabine Eldesbacher. É uma canção muito tocante, em especial pelo momento da história que retrata. Winds of Destination, talvez a faixa mais pesada do disco traz uma participação que é muito animadora, ninguém menos que Hansi Kürsch, uma espécie de deus do Power Metal. A faixa é sim, muito boa e seu refrão é muito empolgante, no entanto eu creio que o interlúdio do meio não é legal, claro, uma questão pessoal. Sprouts of Time e Morning Star são músicas que me confundem um pouco, talvez por estarem já n final do disco. Enquanto a primeira é uma semi-balada de latin jazz, com um crescendo no refrão, a segunda é uma música mais apoteótica mas ainda com uma pegada brasileira forte. As duas são ótimas músicas, mas acho que a densidade do cd pode deixar o ouvindo um pouco sufocado à essa altura.

O Encerramento, por sua vez, não poderia ser mais incrível. Late Redemption, com a participação de Milton Nascimento, realmente, se apresenta como uma canção da mais brilhante MPB, contando com a melancólica voz do Bituca em dueto com um não menos emocionante Edu Falaschi. Mas mais incrível é a força que a música ganha do meio para o fim, arrancando lágrimas de quem acompanhou toda a história. Gate XIII é um encerramento instrumental orquestrado com trechos de todas as músicas, capaz de fazer o já emocionado ouvinte navegar novamente por toda a história que se passou. 



Temple of Shadows tem todos os motivos para ser o álbum cultuado que é, hoje. Claro, no momento de seu lançamento, a recepção não foi tão generosa, em especial no Brasil, onde a tal mídia especializada se resume a amadores, como eu. Mas, com o tempo, o álbum caiu no gosto dos fãs, e todos tiveram que dar o braço a torcer. Quase onze anos depois, Temple of Shadows ainda é considerado o melhor disco do Angra, o melhor álbum conceitual lançado no Brasil, e, sem dúvida, um dos melhores discos que a música nacional já viu.



Temple of Shadows tem um profundo peso e valor sentimental, para mim. Foi o primeiro disco do Angra que eu, de fato, acompanhei o processo de produção e aguardei com ansiedade, lá atrás, então com 14 anos. O Angra era, para mim, basicamente, a melhor banda do mundo, eram os mais técnicos, talentosos e espetaculares músicos que o mundo já tinha visto. Claro, continuo compreendendo o seu valor, mas eles eram meus heróis, na época, e não se discute com um adolescente cheio de razão. 

A cada convidado confirmado, minha ansiedade crescia até que, um dia, o álbum começou a vazar na internet. Sim, começou, a coisa não funcionava com a velocidade de hoje em dia. Ouvi pequenas partes das músicas, transferidas por algum membro de algum fórum da banda no antigo mIRC (não sabe o que é o mIRC?). A minha primeira sensação foi de choque, uma vez que aquilo não parecia o Angra, seguido por um profundo êxtase em descobrir várias bandas novas dentro daquela banda que eu adorava. Temple of Shadows ainda foi um passo importante na minha vida, pois foi a minha primeira compra online, direto do site da banda. Receber a encomenda com o logotipo do Angra me fez sentir muito maduro. 

Por anos, o disco representou uma pedra angular, para mim, tudo que o Angra poderia ser e, em alguns momentos, fracassou. Admito que não é o meu favorito da banda, mas não posso negar sua importância e primor, inclusive em minha construção pessoal e filosófica.

"Não faz diferença se você jogar suas moedas em uma Fonte dos Desejos ou fizer suas preces dentro de uma maravilhosa igreja cheia de ouro. Tudo o que importa é a fé dentro de você. Se há um Deus, Ele não tem lar; Ele está em todo lugar!".



Temple of Shadows ainda é cultuado e elogiado pela crítica no mundo todo. No ano de seu lançamento, o disco rendeu ao Angra séries de premiações e comentários elogiosos por toda a parte. Todos os seus membros foram escolhidos os melhores em seus instrumentos na escolha de "Melhores de 2004 eleitos pelos usuários do Whiplash.Net". O disco foi eleito o melhor álbum de Heavy Metal no Prêmio Claro de Música e ainda melhor álbum do ano pela revista japonesa Burrn! Além disso, o álbum recebeu o Disco de Ouro no Brasil, pela venda de mais de 50 mil cópias e figurou em sexto lugar na parada japonesa Japão - Oricon International Albums Chart.




A turnê do disco passou por vários países, entre eles: Brasil, Itália, Suíça, França, Espanha, Bélgica, Inglaterra, Grécia, Japão, Taiwan,Austrália, Argentina, Chile, Estados Unidos, México, Paraguai, Venezuela e muitos outros países da Europa, América, Oceania e Ásia. A turnê contou com participações especiais de diversos músicos, e colocou o Angra como headliner em diversos festivais. A banda ainda teve shows abertos pelo Nightwish e Dragonforce, na Europa. 


O álbum foi concluído em meados de julho de 2004, no estúdio House Of Audio, localizado na Alemanha, onde, sob o comando de Dennis Ward, aconteceram as gravações de voz e a mixagem. Em seguida, Kiko, Rafael e Edu foram para o Japão a fim de divulgar o disco através de entrevistas e mini apresentações acústicas. A vendagem total do álbum ultrapassou as 200 mil cópias e garantiu mais de 50 prêmios para a banda.

A turnê foi concluída com um show especial, em comemoração aos 14 anos da banda, que aconteceu no dia 05 de novembro de 2005, na casa Via Funchal, em São Paulo. O show teve 3 horas de duração, vários convidados participaram, foram tocadas mais de 20 músicas e o álbum Temple of Shadows foi executado na íntegra. Esse show deveria ter resultado na gravação de um CD/DVD ao vivo, mas acabou tornando-se apenas um raríssimo bootleg.




Há também uma gravação conhecida como 5th Album Demos que foi considerada um item raro por muitos anos. Com a ampliação do compartilhamento na internet, o acesso a esse material tornou-se mais fácil. Nela, é possível ouvir as versões ainda pouco trabalhadas das músicas presentes no Temple of Shadows. Além de versões com diferentes refrões e arranjos que foram modificados.











Um videoclipe foi feito para a música Wishing Well e foi veiculado pela Mtv Brasil. O clipe foi filmado em uma fazenda em Bragança Paulista. Por muitos anos, não foi possível encontrar uma boa versão desse vídeo. Apenas em 2014, o Angra disponibilizou uma versão em HD do clipe, em seu canal oficial no youtube.




As inscrições na capa estão em hebraico:


Na parte superior da capa está escrito: 
Hebraico: סוּרוּ סוּרוּ צְאוּ מִשָּׁם, טָמֵא אַל-תִּגָּעוּ; צְאוּ מִתּוֹכָהּ הִבָּרוּ, נֹשְׂאֵי כְּלֵי יְהוָה 

Tradução: Isaías 52:11 - Retirai-vos, retirai-vos, saí daí, não toqueis cousa imunda: saí do meio dela, purificai-vos, os que levais os vasos do SENHOR


Nos dois cantos está escrito o mesmo versículo: 
Hebraico: אֲנִי אֶהְיֶה-לּוֹ לְאָב, וְהוּא יִהְיֶה-לִּי לְבֵן

Tradução: 2º Samuel 7:14 - Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho 



Na parte inferior da capa está escrito: 

Hebraico: וְהָיָה מִשְׁכָּנִי עֲלֵיהֶם, וְהָיִיתִי לָהֶם לֵאלֹהִים; וְהֵמָּה, יִהְיוּ-לִי לְעָם

Tradução: Ezequiel 37:27 - E o meu tabernáculo estará com eles, e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.




Ainda sobre a capa, há diversos simbolismos presentes. Para muitos, as formas geométricas presentes na capa, formam a bandeira do Brasil. Sobre o dragão, está uma imagem muito utilizada pelo Rafael Bittencourt, o tridente sobreposto à cruz, numa ideia de que Deus e o diabo são um. A imagem da capa foi elaborada pela artista Isabel de Amorim, e está levemente baseada na figura de São Jorge. Mas, percebam, há uma leve alteração da imagem original, na capa do disco, o santo erra a cabeça do dragão.




Existe uma edição dupla do disco, em formato slipcase, lançado pela gravadora SPV. A versão conta com o DVD Rebirth World Tour - Live in São Paulo, como bônus. Essa versão foi distribuída, a princípio, nos Estados Unidos e na Europa, mas, há algum tempo, encontrei também uma versão argentina.


Passados dez anos, creio que é possível afirmar que Temple of Shadows é não apenas um clássico, mas um dos maiores clássicos da música pesada, no Brasil. O disco é, ainda, figura certa, em todas as listas de maiores álbuns de Power Metal de todos os tempos. Após todo o apresentado, obviamente, o veredicto do Unlimited Decibels é claro: CLÁSSICO!





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